O nível de confiança das pessoas em relação às grandes corporações tem caído em quase todo mundo. Em alguns casos nunca foi tão baixo.- Stephen M. R. Convey.
Stephen MR Covey, autor de "The Speed of Trust".
“Caráter tornou-se tão importante quanto competência para aquelas [empresas] que ambicionam criar uma relação duradoura com os clientes”, afirma Stephen Convey (não confundir com o autor de "Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes") à Revista Época Negócios em entrevista. Seu livro mais recente, recomendado por Tom Peters, “The Speed of Trust” (a velocidade da confiança), fala que uma crescente desconfiança por parte dos consumidores em relação às empresas se propaga em todo mundo. “As pessoas se perguntam em quem podem confiar e concluem que não podem confiar em ninguém.” Desde as empresas de fast-food que, comprovadamente, vivem de estragar a saúde das pessoas, até companhias aéreas que, irresponsavelmente, não assumem pela parcela de erro de suas atividades (precisamos citar nomes?), o mercado atravessa uma queda fantástica de integridade. Em todo mundo, rendimentos são maquiados, produtos nocivos são disfarçados com boa propaganda, sem falar no tsunami de baboseira verde em forma de produtos “ecologicamente corretos e sustentáveis” que as empresas já estão despejando na mídia. (Não que o assunto não seja grave e urgente, mas, vindo das empresas que ficaram bilionárias exatamente porque consumiram todos os recursos naturais e destruiram o planeta, você sinceramente acha que delas pode vir algo confiável, especialmente sobre meio ambiente)?
John Elkington, fundador da SustainAbility.
Fato interessante, que virou matéria de capa da Revista Época Negócios, aconteceu na Conferência anual do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, em São Paulo, quando vários presidentes de empresas brasileiras abriram o evento relatando suas opiniões em prol do encontro. “A responsabilidade social está no DNA do negócio, a companhia sempre se preocupou com a sustentabilidade, a opção pela gestão responsável é parte do compromisso com o país”, entre outras frase-feitas “para inglês ver”. Só que o inglês de plantão no evento era John Elkington, fundador da SustainAbility, que dá consultoria para Ford, Shell, DuPont etc, segundo a Época Negócios, ele “detestou” o discurso dos nossos CEOs: “'Sabem o que eu penso quando vejo presidentes de empresas repetindo frases feitas como essas? Coitado de vocês!'” E arremata: “'Os homens de negócios realmente acham que suas empresas estão preparadas para os desafios ambientais e sociais do século 21, mas a verdade é que a maioria não tem idéia do que vem por aí.'” O consultor conta que Bill Ford, presidente do conselho de administração da Ford, que o chamara para externar suas preocupações com a indústria automobilística: “'As pessoas dizem para os fabricantes de cigarro: vocês vendiam esse produto e sabiam dos riscos que ele oferecia à minha saúde. No futuro, os consumidores vão nos dizer: vocês vendiam esses carros e sabiam que os gases que saem dos escapamentos provocam o aquecimento global.'” A conclusão que Elkington chega é: “'Não há nenhuma chance de que as Ford ou as Coca-Cola da vida dêem conta desses desafios com as estratégias tradicionais de cidadania corporativa.'”
Nota 1: Em pesquisa feita em julho de 2007 com 537 executivos de 381 grandes empresas nacionais (representando dois terços do "top management" do país), o IBOPE revelou que a elite empresarial brasileira perdeu confiança na televisão e não acredita numa melhora na programação. A confiabilidade plena na TV aberta, que era de 61% em 2005, foi reduzida para 52%. A TV também perdeu "eficiência". Com ela, há dois anos alcançava-se o que se buscava para 65% dos executivos. Hoje, só para 49%. Já a internet, que era vista como eficiente por apenas 29%, hoje satisfaz 75%. “'As mídias modernas subiram em eficiência e as tradicionais perderam'”, conclui Paula Soria, diretora de atendimento e planejamento do Ibope Inteligência.
Nota 2: Sobre o tema “sustentabilidade”, a mesma pesquisa do IBOPE informa que 79% dos executivos e 55 % dos cidadãos já ouviram falar de sustentabilidade empresarial, sendo que, para os executivos, sustentabilidade empresarial está atrelada aos conceitos de responsabilidade social (59%) e preservação do meio ambiente (58%), e, para os cidadãos, o conceito está atrelado ao desenvolvimento de produtos (33%) e à solidez das instituições (23%).